The Beatles – Parte 5: Abbey Road, Let It Be e o fim da maior banda do mundo (1969–1970)

Imagem ilustrativa criada com inteligência artificial.

Poucas bandas tiveram o privilégio — ou o peso — de saber que estavam gravando seu próprio epitáfio. Entre 1969 e 1970, os Beatles não eram mais quatro jovens tentando conquistar o mundo. Eram quatro homens ricos, exaustos e artisticamente maduros que já não conseguiam conviver sob o mesmo teto criativo.

O fim não foi repentino. Foi um desgaste lento, cheio de pequenas quebras de confiança, divergências empresariais e silêncios constrangedores no estúdio. E, paradoxalmente, foi nesse cenário que nasceram Abbey Road e Let It Be — dois álbuns que mostram, ao mesmo tempo, a elegância da despedida e o cansaço de uma relação esgotada.


Get Back: a tentativa de salvar o que já estava rachado

No início de 1969, Paul McCartney propôs uma ideia que parecia sensata: abandonar os excessos de estúdio e voltar ao básico. Ensaiar ao vivo, gravar como banda, sem truques. O projeto se chamaria Get Back.

A intenção era recuperar a química perdida após o caos do White Album. O problema é que a química já não estava mais ali.

As sessões começaram nos estúdios de cinema de Twickenham, em janeiro de 1969. Ambiente frio, pouco acolhedor e constantemente filmado por câmeras. Cada tensão era registrada. Cada comentário atravessado ficava documentado.

George Harrison, já mais seguro como compositor após músicas como “While My Guitar Gently Weeps”, sentia-se novamente subestimado. Em um momento que ficou famoso, Paul explica como queria que George tocasse determinada parte. A resposta de Harrison foi seca:
“Eu toco o que você quiser que eu toque. Ou não toco nada.”

Poucos dias depois, George abandonou as gravações temporariamente.

Lennon, por sua vez, estava emocionalmente distante. Sua ligação com Yoko Ono era total — e ela passou a frequentar as sessões de gravação de forma constante, algo que quebrava um acordo não escrito entre os Beatles: o estúdio era território exclusivo da banda.

A presença de Yoko não destruiu os Beatles. Mas escancarou fissuras que já existiam.


O concerto no telhado: o último ato público

Depois de semanas de tensão, o grupo decidiu fazer algo simbólico: tocar ao vivo, inesperadamente, no telhado da Apple Corps, em Londres.

Em 30 de janeiro de 1969, os Beatles subiram ao topo do prédio e executaram “Get Back”, “Don’t Let Me Down”, “I’ve Got a Feeling” e outras músicas do projeto.

O som não era perfeito. O clima estava frio. A polícia acabou interrompendo a apresentação.

Mas havia algo de profundamente significativo ali. Não era apenas um show. Era um gesto de afirmação — talvez o último.

Para muitos fãs que viveram aquele período, o concerto no telhado representa o adeus mais autêntico da banda. Nada de estádio lotado. Nada de orquestra. Apenas quatro músicos tocando juntos, como no começo.


Abbey Road: a despedida consciente

Apesar de Let It Be ter sido lançado depois, o último álbum realmente gravado pelos Beatles foi Abbey Road, em 1969.

Aqui houve uma espécie de trégua profissional. Eles sabiam que a convivência estava no limite. Mas também sabiam que ainda eram capazes de criar algo grandioso.

O resultado foi um disco tecnicamente impecável.

O lado B é uma suíte contínua que conecta fragmentos musicais em um medley sofisticado — algo raro no rock da época. Paul McCartney liderou essa construção com obsessão quase cirúrgica.

George Harrison brilhou como nunca. “Something” e “Here Comes the Sun” provaram que ele já não era o “terceiro compositor”, mas um autor de peso equivalente.

Lennon trouxe “Come Together”, minimalista e hipnótica, abrindo o disco com personalidade.

E em “The End”, cada Beatle executa um solo — inclusive Ringo, que raramente fazia solos em estúdio. A música termina com uma frase que soa como conclusão inevitável:

“And in the end, the love you take is equal to the love you make.”

Para um público que acompanhou os Beatles desde os anos 60, esse verso nunca soou apenas como poesia. Soou como encerramento.


Let It Be: um álbum que ninguém queria mais terminar

As gravações do projeto Get Back ficaram engavetadas até que, em 1970, decidiram lançá-las sob o título Let It Be.

O produtor escolhido foi Phil Spector, famoso pelo “Wall of Sound”. Ele adicionou arranjos orquestrais e corais em faixas como “The Long and Winding Road”.

Paul McCartney detestou o resultado. Considerava que o excesso de cordas traía a proposta original de simplicidade.

Essa divergência se transformou em mais um ponto de ruptura.

Mesmo assim, o álbum trouxe músicas que se tornaram clássicos absolutos:
“Let It Be”, quase um hino espiritual;
“Across the Universe”, contemplativa e introspectiva;
“Get Back”, carregando a energia crua do projeto original.

Mas diferente de Abbey Road, Let It Be soa como um documento. Não como uma despedida planejada, mas como o registro de algo que já estava se desfazendo.


O conflito empresarial que selou o fim

Se as divergências artísticas já eram profundas, o conflito empresarial tornou tudo irreversível.

Após a morte de Brian Epstein, a banda ficou sem liderança administrativa. Paul queria que o sogro, Lee Eastman, assumisse a gestão. Lennon, Harrison e Starr preferiram Allen Klein, empresário agressivo e controverso.

A escolha dividiu definitivamente o grupo.

Em abril de 1970, Paul McCartney anunciou publicamente sua saída. Meses depois, entrou com ação judicial para dissolver a sociedade dos Beatles.

A maior banda do mundo terminou em tribunais.


O fim inevitável

Para quem tinha mais de 20 anos na época, o fim dos Beatles não foi apenas o encerramento de uma banda. Foi o fim de uma era.

Eles acompanharam a juventude de uma geração. Da inocência da Beatlemania à introspecção de Revolver, da utopia de Sgt. Pepper à melancolia de Abbey Road.

Entre 1969 e 1970, os Beatles provaram algo difícil de aceitar: maturidade artística não garante permanência. Às vezes, crescer significa seguir caminhos diferentes.

Abbey Road é a despedida elegante.
Let It Be é o retrato do desgaste.
E o concerto no telhado é a imagem final que ficou na memória.

Eles não acabaram por falta de talento.
Acabaram porque já não eram mais os mesmos.


Questões que não querem calar

Abbey Road foi realmente o último álbum dos Beatles?
Sim. Foi o último gravado com todos conscientes de que poderia ser o fim.

Yoko Ono foi a causa da separação?
Não. Ela intensificou tensões já existentes, mas o desgaste vinha de antes.

Paul dominava as gravações no final?
Em muitos momentos, sim. Seu perfeccionismo sustentava a produção, mas alimentava ressentimentos.

Phil Spector melhorou ou prejudicou Let It Be?
Depende do ouvido. Para alguns, deu grandiosidade. Para outros, descaracterizou a proposta original.

Os Beatles poderiam ter se reunido nos anos 70?
As chances existiram. Mas os conflitos pessoais e empresariais tornaram a reconciliação improvável.


Por Rafael Drumond
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